Ouçam a linda música "Terra" de Ceatano Veloso
Ouçam a linda música "Terra" de Ceatano Veloso
Discurso de Leonardo Boff na Organização das Nações Unidas (ONU), no dia 22 de abril de 2009 Senhor Presidente Miguel d’Escoto Brockmann, Senhor Presidente do Estado Plurinacional de Bolívia, Sua Excelência Evo Morales Ayma Distinguidos delegados Irmãos e Irmãs todos, No ano de 2000 a Carta da Terra nos fazia esta severa advertência: "Estamos num momento crítico da história da Terra, na qual a humanidade deve escolher o seu futuro... A escolha nossa é: ou formamos uma aliança global para cuidar da Terra e cuidar-nos uns dos outros ou arriscamos a nossa própria destruição e a da diversidade da vida". Se a crise econômico-financeira é preocupante, a crise da não-sustentabilidade da Terra se apresenta ameaçadora. Os cientistas que acompanham o estado da Terra, especialmente a Global Foot Print Network têm falado do Earth Overshoot Day, do dia em que foram ultrapassados os limites da Terra. E isso ocorreu exatamente no dia 23 de setembro de 2008, uma semana após o estouro da crise econômico-financeira nos EUA. A Terra ultrapassou em 40% sua capacidade de reposição dos recursos necessários para as demandas humanas. Neste momento necessitamos mais de uma Terra para atender a nossa subsistência. Como garantir a sustentabilidade da Terra já que esta é a premissa para resolver as demais crises: a social, a alimentar, a energética e a climática? Agora já não temos uma Arca de Noé que salve alguns e deixa perecer os demais. Todos devemos nos salvar juntos. Como asseverou recentemente com muita propriedade o Secretário Geral desta Casa, Ban Ki-Moon:"não podemos deixar que o urgente comprometa o essencial". O urgente é resolver o caos econômico, mas o essencial é garantir a vitalidade e a integridade do planeta Terra. É decisivo superar a crise financeira, porém o imprescindível e essencial é: como vamos salvar a Casa Comum e a Humanidade que é parte dela? Esta é a razão para termos adotado a resolução sobre o Dia Internacional da Mãe Terra que, a partir de agora, se celebrará no dia 22 de abril de cada ano. Dado o agravamento da situação ambiental, especialmente do aquecimento global, temos que atuar juntos e rapidamente. Não temos tempo a perder nem nos é permitido errar. Caso contrário, há o risco de que a Terra possa continuar mas sem nós. Em nome da Terra, nossa Mãe, de seus filhos e filhas sofredores e dos demais membros da comunidade de vida, quero agradecer a esta Assembléia Geral por haver sabiamente aprovado esta resolução. Neste contexto, me permito fazer uma breve apresentação do fundamento que sustenta a idéia da Terra como nossa Mãe. Desde a mais alta ancestralidade, as culturas e religiões sempre têm testemunhado a crença na Terra como Grande Mãe, Magna Mater, Inana e Pachamama. Os povos originários de ontem e de hoje tinham e têm clara consciência de que a Terra é geradora de todos os viventes. Somente um ser vivo pode produzir vida em suas mais diferentes formas. A Terra é, pois, nossa Mãe universal. Durante séculos e séculos prevaleceu esta visão até a emergência recente do espírito científico no século XVI. A partir de então, a Terra já não é mais considerada como Mãe, senão como uma realidade sem espírito, entregue ao ser humano para ser submetida, mesmo com violência. A mãe-natureza que devia ser respeitada se transformou em natureza-selvagem que deve ser dominada. A Terra se viu convertida num baú cheio de recursos naturais, disponíveis para a acumulação e o consumo humano. Neste novo paradigma não se coloca a questão dos limites de suportabilidade do sistema Terra, nem dos recursos naturais não renováveis. Pressupunha-se que os recursos seriam infinitos e que poderíamos ir crescendo ilimitadamente na direção do futuro. O que efetivamente é uma grande ilusão. A preocupação principal era e é: como ganhar mais no tempo o mais rápido possível e com um investimento menor? A realização histórica deste propósito fez surgir um arquipélago de riqueza rodeado por um mar de miséria. O PNUD de 2007-2008 o confirma: os 20% mais ricos do mundo absorvem 82,4% de todas as riquezas da Terra enquanto os 20% mais pobres têm que se contentar com apenas 1,6%. Estes dados provam que uma ínfima minoria monopoliza o consumo e controla os processos econômicos que implicam pilhagem da natureza e grande injustiça social. Entretanto, a partir dos tardios anos 70 do século passado se tem imposto a constatação de que um planeta pequeno, velho e limitado como a Terra já não pode suportar um projeto ilimitado. Faz-se urgente outro modelo que tenha como eixo a Terra, a vida e o bem viver planetário no quadro de um espírito de colaboração, de responsabilidade coletiva e de cuidado. Agora a preocupação central é: como viver e produzir em harmonia com a Terra, com os seres humanos, como o universo e com a Última Realidade, distribuindo equitativamente os benefícios entre todos e alimentando solidariedade para com as gerações presentes e futuras? Como viver mais com menos? Que toda a Terra está cheia de vida no-lo comprova o conhecido biólogo Edward O. Wilson. Escreve ele: "Num grama de terra ou seja, em menos de um punhado, vivem cerca de dez bilhões de bactérias pertencentes até a seis mil espécies diferentes". Efetivamente, a Terra é Mãe fecunda. A Terra existe já há 4, 4 bilhões de anos. Num momento avançado de sua evolução, de sua complexidade e de sua auto-organização, começou a sentir, a pensar e a amar. Foi quando emergiu o ser humano. Com razão, nas línguas ocidentais homo / homem vem de húmus, terra fecunda. E em hebraico Adam se deriva de adamah, terra cultivável. Por isso, o ser humano é a própria Terra que anda, que sente, que pensa e que ama, como dizia o poeta indígena e cantador argentino Atahualpa Yupanqui. A visão dos astronautas confirma a simbiose entre Terra e Humanidade. De suas naves espaciais testemunhavam de forma comovedora: "daqui, contemplando este resplancedente planeta azul-branco, não se percebe nenhuma diferença entre Terra e Humanidade. Formam uma única entidade". Mais que como povos, nações e etnias devemos nos entender como criaturas da Terra, como filho e filhas da Mãe comum. Entretanto, olhando a Terra mais de perto, nos damos conta de que ela se encontra crucificada. Possui o rosto do terceiro e quarto mundo, porque vive sistematicamente agredida. Quase a metade de seus filhos e filhas padece fome e sede e são condenados a morrer antes do tempo. A cada quatro segundos, consoante dados da própria ONU, morre uma pessoa estritamente de fome. Por isso, são expressões de amor à Mãe Terra, as políticas sociais de muitos países, como por exemplo, de meu pais, o Brasil, sob o governo do Presidente Luis Inácio Lula da Silva, particularmente o programa Fome Zero e o Bolsa-Família. Em seis anos se devolveu vida e dignidade a 50 milhões de pessoas que antes viviam na pobreza e na fome. Temos que baixar a Terra da cruz e ressuscitá-la. Para esta tarefa gigantesca somos inspirados por um documento precioso: a Carta da Terra. Nasceu da sociedade civil mundial. Em sua elaboração envolveu mais de cem mil pessoas de 46 países. Em 2003 uma resolução da UNESCO a apresentou "como um instrumento educativo e uma referência ética para o desenvolvimento sustentável". Participaram ativamente de sua concepção Mikhail Gorbachev, Maurice Strong e Steven Rockfeller e eu mesmo entre outros. A Carta entende a Terra como dotada de vida e como nosso Lar Comum. Apresenta pautas concretas que podem salvá-la, cuidando-a com compreensão, com compaixão e com amor, como cabe a toda mãe. Oxalá, um dia, esta Carta da Terra, possa ser apresentada, discutida e enriquecida por esta Assembléia Geral. Caso seja aprovada, teríamos um documento oficial sobre a dignidade da Terra junto com a declaração sobre a dignidade da pessoa humana. Mas cabe fazer uma advertência. Para sentir a Terra como Mãe não é suficiente a razão dominante que é funcional e instrumental. Necessitamos enriquecê-la com a razão sensível, emocional e cordial, pois ai se enraíza o sentimento profundo, se elaboram os valores, se cultivam o cuidado essencial, a compaixão e os sonhos que nos inspiram ações salvadoras. Nossa missão, no conjunto dos seres, é a de ser os guardiões e cuidadores desta sagrada herança que recebemos do universo: a Terra, nossa Mãe. Para terminar permito-me fazer uma sugestão: que se coloque na cúpula interna da Assembléia uma destas imagens belíssimas e plásticas da Terra vista a partir de fora da Terra. Suspensa no transfundo negro do universo, ela evoca em nós sentimentos de reverência e de mútua pertença. Ao contemplá-la, tomamos consciência de que ai está o nosso Lar Comum. Pediria ainda que fosse aprovada uma recomendação de que no dia 22 de abril, dia Internacional da Mãe Terra, se fizesse um momento de silêncio em todos os lugares públicos, nas escolas, nas fábricas, nos escritórios, nos parlamentos para que nossos corações entrem em sintonia com o coração de nossa Mãe Terra. Concluo. Tal como está, a Terra não pode continuar. É urgente que mudemos nossas mentes e nossos corações, nosso modo de produção e nosso padrão de consumo, caso quisermos ter um futuro de esperança. A solução para a Terra não cai do céu. Ela será o resultado de uma coalizão de forças em torno a uma consciência ecológica integral, uns valores éticos multiculturais, uns fins humanísticos e um novo sentido de ser. Só assim honraremos nossa Casa Comum, a Terra, nossa grande generosa Mãe. Muito obrigado Leonardo Boff , Representante do Brasil e da Comissão da Carta da Terra.
Foi neste contexto que se resgatou a visão da Terra como Mãe. Já não é mais a percepção dos antigos mas uma constatação empírica e científica. Foi mérito dos cientistas e sábios como James Lovelock, Lynn Margulis e José Lutzenberger nos anos 70 do século passado, ter demonstrado que a Terra é um superorganismo vivo que se autoregula. Ela articula permanentemente o físico, o químico e o biológico de forma tão sutil e equilibrada que, sob a luz do sol, propicia a produção e a manutenção de todas as formas de vida. Por milhões de anos o nível do oxigênio, essencial para a vida, se mantém em 21%, o nitrogênio, decisivo para o crescimento, em 79% e o nível de sal dos oceanos em 3,4%. E assim todos os elementos necessários para a vida. Não é apenas que sobre a Terra haja vida. A Terra mesma é viva, chamada de Gaia, a deusa grega para significar a Terra viva.
LEONARDO BOFF – RESERVA MORAL
por Fábio Oliveira
Como a imprensa brasileira se omite diante de fatos importantes! Um deles foi o maravilhoso pronunciamento de Leonardo Boff na Organização das Nações Unidas (ONU). Não ouvi nada na imprensa desse país sobre assunto tão importante para humanidade, e em especial para o Brasil.
Além de se tratar de um discurso de grande significado e importância, não poderíamos jamais esquecer que foi proferido por uma das raras reservas morais que esse país ainda possui e que se chama LEONARDO BOFF.
Não tem problema, nós temos uma mídia fortíssima que se chama internet, uma das boas criações da moderna tecnologia. Faremos o discurso do nosso querido Leonardo Boff ecoar em todas as mentes bem intencionadas desse imenso Brasil.
Com certeza, a inteligência, o pensamento lúcido e a ação espiritual incomodam, quando deveriam ser motivo de enaltecimentos. Tais virtudes deveriam ser uma das prioridades da imprensa, pois o Brasil tem grande importância nos aspectos ecológicos e sociais e necessita desses conhecimentos, urgentemente.
Tratar a inteligência com desprezo é uma das maiores ignorâncias que uma nação pode cometer com seus filhos. Não há ofensa a Leonardo Boff, que é um homem de dimensão internacional e não precisa de auto-afirmação, mas há ofensa a toda uma nação que perde a oportunidade de crescer nos valores que realmente dignificam a vida.
A mídia brasileira reclama da violência, da corrupção, da mediocridade e da hipocrisia que impregnaram esse país. Porém, não divulga o que realmente pode curar esses grandes males. O pensamento de Leonardo Boff deveria ser mais divulgado por esse imenso Brasil.
Nós faremos tal divulgação pela internet, que é um dos meios disponíveis para abrir as mentes que se encontram fechadas pelo condicionamento de um modelo que agoniza.
Sergiu Celibidache – A Batuta Indomável

Immanuel Kant ou Emanuel Kant ( Königsberg, 22 de Abril de 1724 - Königsberg, 12 de Fevereiro de 1804) foi um filósofo alemão, considerado como o último grande filósofo dos princípios da era moderna, indiscutivelmente um dos seus pensadores mais influentes.
“O sábio pode mudar de opinião. O ignorante, nunca”.
“O homem não é nada além daquilo que a educação faz dele”.
“Ciência é conhecimento organizado. Sabedoria é vida organizada”.
Voltaire disse que o céu nos tinha dado duas coisas para equilibrar as numerosas desgraças da vida: a esperança e o sonho. Podia ter acrescentado o Riso.
“A nossa época é a época da crítica, à qual tudo tem que submeter-se. A religião, pela sua santidade, e a legislação, pela sua majestade, querem igualmente subtrair-se a ela. Mas então suscitam contra elas justificadas suspeitas e não podem aspirar ao sincero respeito, que a razão só concede a quem pode sustentar o seu livre e público exame”.
“O homem é o único animal que precisa trabalhar”.
“Somos todos iguais perante o dever moral”.
“É por isso que se mandam as crianças à escola: não tanto para que aprendam alguma coisa, mas para que se habituem a estar calmas e sentadas e a cumprir escrupulosamente o que se lhes ordena, de modo que depois não pensem mesmo que têm de pôr em prática as suas idéias”.
“É no problema da educação que assenta o grande segredo do aperfeiçoamento da humanidade”.
“A geometria é uma ciência de todas as espécies possíveis de espaços”.
“A missão suprema do homem é saber o que precisa para ser homem”.
“Todo o conhecimento humano começou com intuições, passou daí aos conceitos e terminou com idéias”.
“A felicidade não é um ideal da razão, mas sim da imaginação”.
“Mesmo a mulher mais sincera esconde algum segredo no fundo do seu coração”.
“Age sempre de tal modo que o teu comportamento possa vir a ser princípio de uma lei universal”.
“Age de modo que consideres a humanidade tanto na tua pessoa quanto na de qualquer outro, e sempre como objetivo, nunca como simples meio”.

ALTERNATIVAS GLOBAIS
por Manfredo Araújo de Oliveira
Doutor em Filosofia e professor da UFC
manfredo.oliveira@uol.com.br
Tempos de crise são tempos de discernimento, de avaliação. Este processo na crise atual começa a produzir seus frutos. Primeiro, algumas idéias de fundo, que dificilmente eram defensáveis a pouco, começam a ser difundidas e acatadas por um público considerável. Assim, por exemplo, que a atual crise é uma crise muito radical porque põe em questão o próprio modelo de desenvolvimento capitalista e os parâmetros básicos da sociedade industrial construída na modernidade, que é o suporte deste tipo de desenvolvimento. Isto precisamente porque se trata de um modelo de desenvolvimento e de apropriação de seus frutos que sobrecarrega sobre o Sul a prosperidade do Norte; que sobrepesa para todos a prosperidade de alguns; que em favor de uns poucos esgota sistematicamente os recursos do planeta e o destrói para o momento presente e para as futuras gerações.
A crise é radical porque ela põe em questão a forma de produzir, de comercializar, de consumir e os valores que marcam a civilização industrial que construímos. Muitos de seus efeitos começam a espantar a humanidade: a produção de lixo, a degradação dos solos e das águas, as doenças geradas em consequência destes processos, o desperdício enorme de matérias-prima e de energia não renovável, a destruição da biodiversidade, a exclusão social cada vez maior, etc.
O mais importante é que em segundo lugar as pessoas começam a pensar em alternativas viáveis, ou seja, muitos se recusam a apenas buscar arranjos para salvar o vigente e se põem com toda honestidade e seriedade a questão de como construir uma outra sociedade na qual possamos não apenas sobreviver todos, mas nos respeitarmos a todos. Desta forma, emerge um imperativo ético urgente: a construção coletiva de um modelo social alternativo, de uma mudança estrutural em nossa configuração societária, de um modelo de desenvolvimento realmente para todos, portanto, humanizante, solidário, democrático e austero. Neste contexto aparecem desafios e medidas que se revelam como de grande importância na medida em que possuem a capacidade de deslanchar o processo de construção do novo possível e exigido.
Antes de tudo, a convicção de que a pobreza absoluta, visualizada, sobretudo, nas formas de fome e subnutrição, é simplesmente inaceitável o que deve conduzir à firme vontade política de sua erradicação. O grande desafio aqui é a construção de uma cultura política de solidariedade. Os satisfeitos do Norte e do Sul têm muita dificuldade de entender o básico de onde se pode partir para uma verdadeira consciência de justiça social: que a mudança de modelo social é de interesse de todos, portanto, apesar das aparências também deles.
O desafio maior, contudo, está na síntese necessária entre protestos e propostas, entre as convicções éticas (os fins) e busca de mediações históricas (os meios), as medidas técnicas de natureza estrutural, que as possam efetivar em nossos contextos societários. Vale lembrar neste contexto, como exemplo destas medidas que constituem o mínimo capaz de apontar para o futuro, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento de 1995 que se entende como um pacto para o desenvolvimento humano e social com sete objetivos básicos: escolarização primária universal, redução do analfabetismo de adultos em 50%, atenção primária de saúde para todo o mundo, eliminação da desnutrição grave e redução da moderada em 50%, serviços de planificação familiar, água apta para o consumo, créditos a juros baixos para empresas sociais. A experiência histórica foi tornando claro para muitas pessoas que a efetivação destas metas exige transformações estruturais profundas de um contexto social que gera profunda assimetria e desigualdades.
Os cristãos de diferentes confissões, que nesta semana celebram a Páscoa, se devem sentir interpelados a atuar no mundo a serviço dos valores evangélicos que neste contexto apontam para a solidariedade com um futuro para todos.