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24/01/2006


QUEM COMANDA O MUNDO ?

 

Com a autonomização da economia e o enfraquecimento dos estados-nação, é ilusório pensar que os presidentes eleitos sejam os que têm o comando sobre o país. Quem decide os destinos reais do povo não é o Presidente. Ele é refém do Ministro da Fazenda e do Presidente do Banco Central que por sua vez são reféns do sistema econômico-financeiro mundial a cuja lógica se submetem. Quando o presidente Bush fala à nação muitos seguramente o escutam. Mas quando fala o presidente do Federal Reserve (FED) a nação inteira pára. O que ele tem a dizer significa a vida ou a morte de muitos empregos e do destino de empresas.

 

Os donos do mundo estão sentados atrás dos bancos, são os que controlam os mercados financeiros, as taxas de juros, as infovias de comunicação, as tecnologias biogenéticas e as indústrias de informação.

 

Imensos conglomerados privados atuam em nível planetário. Sem perguntar a ninguém e sem qualquer controle, dilapidam o patrimônio comum da humanidade em benefício próprio. Desflorestaram em poucos anos 800 mil hectares das ilhas de Bornéu, Java, Sumatra e Sulawesi. Os incêndios projetaram fumaça do tamanho de meio continente. Esses mesmos grupos mancomunados com os nossos atuam agora na floresta amazônica. As leis de proteção ambiental são inoperantes face à fúria de conseguir dólares via exportação para o país fazer frente aos compromissos da dívida externa e interna. O agro-negócio implica desflorestar, liquidar a biodiversidade, homogeneizar a produção em escala.

 

Esta lógica funciona no sistema globalizado mundial, criando desigualdades e devastações ecológicas lá onde se implanta. Para 2010 prevê-se que as florestas tenham diminuído em 40%. Em 2040 o aumento dos gases do efeito estufa podem provocar um aquecimento entre 1ºC a 2ºC elevando o nível das águas oceânicas a 0,5 a 1,5 metro, afetando milhares de cidades costeiras. Seis milhões de hectares de terras férteis somem por ano sob o efeito da desertificação.

 

As doenças infecciosas de todo tipo viajam à velocidade dos mercados. A Aids é uma pandemia na África. A expectativa de vida da África subssariana diminuiu já sete anos e em outros paises como Uganda, Zimbáue, Zâmbia recuou dez anos. No ano passado a produção econômica de Quênia, por causa da Aids, caiu em 14,5%. A África é um continente abandonado à sua própria desgraça, sequer merece ser explorado. O Papa faz discursos irresponsáveis.

 

Se houvesse um pouco de humanidade e compaixão entre os humanos, bastaria que se retirassem apenas 4% das 225 maiores fortunas do mundo para dar comida, água, saúde e educação a toda a humanidade. Estes são dados da ONU de 2004. Enquanto isso, 30 milhões de pessoas ainda morrem de fome e dois bilhões são anêmicos.

 

Teremos tempo para que a desintegração se mostre criativa? Uma leve esperança se anuncia um pouco em todas as partes do mundo, em Seattle, em Gênova, em Porto Alegre e nos Fóruns Sociais Mundiais. Aí surge um anti-poder que pede uma nova justiça planetária, uma taxação significativa dos capitais especulativos, a introdução de uma renda de existência a todos os habitantes da Terra não para subsistirem mas porque simplesmente existem. A aplicação rigorosa da ética da precaução e do cuidado em questões ambientais. Esperanças. Que tenham a força da semente.

 

Leonardo Boff

Escrito por Fabio Oliveira às 19h28
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09/01/2006


 

 

A ÁGUA DA VIDA

 

Todos dormem. Abandonei-me ao sono, mas ele não me transportou.

Por toda a noite contei estrelas no céu. O sono fugiu de meus olhos

para nunca mais voltar: tragou o veneno da separação, expirou.

Saberias preparar um remédio feito da matéria do encontro

e dá-lo ao ferido que te entregou olhos e coração?

Não feches de vez as portas da caridade.

Se não serves o puro vinho, serve ao menos a dose mínima do mosto.

Deus encerrou todas as delícias num único aposento.

Ninguém sem tua ajuda jamais encontrou Caminho seguro para esse refúgio.

Se me reduzi a pó no caminho do amor,não me julgues com desprezo;

como pode ser pequeno aquele que bate contigo à porta da união?

Enche de pérolas nunca vistas a manga deste manto que de meus

olhos tantas lágrimas enxugou.

A cada vez que a ronda do amor assalta alguém na noite escura, tua lua aperta-o compassiva contra o peito cor de prata. Quando o coração errante retorna de tua graça

conta a história da noite, do disco da lua, do camelo, do curdo. Eram seres indistintos

originados da água. Vieram então ao mundo, este lugar frio, que os congelou um a um.

Em nosso corpo, o sangue é a doce água da vida. Vê como tudo se iguala, quando brota da fonte do coração. Não congeles a água da fala, nem a retires de sua fonte, para que não seja seda fina deste lado nem farrapo do outro.

 

Rumi

 

Escrito por Fabio Oliveira às 18h26
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04/01/2006


CIÊNCIA DO VIVER

O que é uma pessoa Inteligente?


Muitos acreditam que inteligente é aquele que acumula cursos e diplomas universitários. Outros qualificam como inteligentes aqueles que têm a capacidade de ganhar muito dinheiro.

Deixando de lado essas concepções usuais do que é ser inteligente, vamos explorar esse tema sob um novo enfoque, numa concepção mais integral, ligada à nossa vida cotidiana.

Nesse sentido, podemos considerar inteligente toda pessoa que vive a vida de maneira agradável, sentindo-se sempre feliz. Por mais estranha que, para alguns, essa concepção possa parecer, indubitavelmente ela precisa ser examinada em profundidade para mudar a visão estreita que temos sobre inteligência.

Vejamos: se alguém está sempre feliz, vivendo plenamente cada momento, se sabe valorizar o simples fato de estar vivo, participando intensamente das experiências que lhe são oferecidas sobre este belíssimo planeta azul, podemos dizer que esse alguém tem a inteligência necessária para compreender o sentido da vida.

Dentro desse enfoque, voltando à primeira concepção de inteligência, perguntamos: Podemos considerar inteligente alguém com vários diplomas, ou ganhando muito dinheiro, mas vivendo apreensivo com seu futuro, angustiado diante da vida, ou infeliz com o que já possui, ambicionando ter sempre mais do que já tem?

Na verdade, só merece ser chamada de inteligente a pessoa que aprendeu a RELACIONAR-SE com os problemas da vida. Notem bem que se trata de aprender a RELACIONAR-SE com os problemas, o que não significa obrigatoriamente RESOLVÊ-LOS. A pessoa inteligente deve aprender a manter-se feliz, APESAR dos problemas que porventura tiver de enfrentar.

Um grande sinal de inteligência é ser capaz de optar por sentir-se feliz, mesmo quando as circunstâncias exteriores forem dolorosas.

Na verdade, a vida é uma geradora interminável de problemas. Por isso, se formos esperar que não existam problemas para nos sentirmos feliz, provavelmente teremos que esperar para sempre. A pessoa inteligente compreende isso muito bem e é capaz de separar aquilo que está sentindo dentro de si das circunstâncias exteriores.

À primeira vista isso pode parecer um verdadeiro absurdo, pois, usualmente nem mesmo concebemos a possibilidade de separar nossos estados interiores dos acontecimentos exteriores.

A pessoa inteligente, porém, compreendeu que os problemas passam como nuvens no céu, mas o sol, que faz parte de sua essência está sempre brilhando por trás das nuvens. Por isso, descobriram que podem escolher como se sentir diante de qualquer situação.

Os problemas relacionados com dinheiro, envelhecimento, doença, morte, catástrofes naturais ou acidentes apresentam-se a todos os seres humanos em maior ou menor intensidade. Algumas pessoas, porém, são capazes de não se deixar abater por eles. Por isso, nunca se sentem infelizes, depressivas, ressentidas ou revoltadas. Ao contrário, sentem que, apesar de tudo, a chama da vida é o bem mais precioso que existe.

Compreenderam que todos esses problemas são inerentes à condição humana e, por isso, não permitem que a felicidade existente dentro de si seja poluída por eles.

Diante dessas reflexões sobre inteligência podemos dizer que, sem dúvida, somente as pessoas capazes de conservar incólume a felicidade dentro de si merecem o título de “inteligentes”. Aliás, muito inteligentes!

Paulo A. S. Raful
Lauro de A. S. Raful

Escrito por Fabio Oliveira às 19h24
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17/12/2005


O CASTELO DA MENTE DECORADO PARA E ENTRADA DO BUDA

 

(Sutra Avatamsaka)

 

Havia certa feita, um menino de nome Sudhana, que também desejou a iluminação e procurou seriamente o caminho da budicidade.

 

De um pescador aprendeu as tradições do mar. De um médico aprendeu a ter compaixão dos doentes em seus sofrimentos. De um homem rico aprendeu que a poupança é o segredo de toda a fortuna; e com isso concluiu que é necessário conservar tudo aquilo que se obtém no caminho da iluminação, por mais insignificante que seja. De um monge que medita aprendeu que a mente pura e tranqüila tem o maravilhoso poder de purificar e tranqüilizar outras mentes.

 

Certa vez, encontrou uma mulher de extraordinária personalidade e ficou impressionado com sua benevolência, dela aprendendo que a caridade é o fruto da sabedoria. Certa ocasião, encontrou um velho viajante que lhe contou que, para chegar a um certo lugar, teve de escalar uma montanha de espadas e atravessar um vale de fogo.

 

Assim, com suas experiências, Sudhana aprendeu que sempre há um verdadeiro ensinamento a ser colhido e assimilado em tudo aquilo que é visto e ouvido.

 

Ele aprendeu paciência de uma pobre mulher, fisicamente imperfeita; aprendeu a pura felicidade, observando as crianças brincarem na rua; e de um gentil e humilde homem, que nunca desejou aquilo que os outros desejavam, aprendeu o segredo de viver em paz com todo o mundo.

 

 

 

Escrito por Fabio Oliveira às 08h04
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09/12/2005


O MITO DA CAVERNA

 
    Platão

 

Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração, seres humanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal modo que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas para a frente, não podendo girar a cabeça nem para trás nem para os lados. A entrada da caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modo que se possa, na semi-obscuridade, enxergar o que se passa no interior.

A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ela e os prisioneiros - no exterior, portanto - há um caminho ascendente ao longo do qual foi erguida uma mureta, como se fosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao longo dessa mureta-palco, homens transportam estatuetas de todo tipo, com figuras de seres humanos, animais e todas as coisas.

Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela, os prisioneiros enxergam na parede do fundo da caverna as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam.

Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginam que as sombras vistas são as próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são imagens (estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos reais fora da caverna. Também não podem saber que enxergam porque há a fogueira e a luz no exterior e imaginam que toda a luminosidade possível é a que reina na caverna.

Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse os prisioneiros? Que faria um prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os outros seres humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos de imobilidade, começaria a caminhar, dirigindo-se à entrada da caverna e, deparando com o caminho ascendente, nele adentraria.

Num primeiro momento, ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz do sol, e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a claridade, veria os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho, enxergaria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda sua vida, não vira senão sombras de imagens (as sombras das estatuetas projetadas no fundo da caverna) e que somente agora está contemplando a própria realidade.
Libertado e conhecedor do mundo, o priosioneiro regressaria à caverna, ficaria desnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los.

Que lhe aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com suas caçoadas, tentariam fazê-lo espancando-o e, se mesmo assim, ele teimasse em afirmar o que viu e os convidasse a sair da caverna, certamente acabariam por matá-lo.

Extraído do livro "Convite à Filosofia" de Marilena Chaui.

 

Escrito por Fabio Oliveira às 21h39
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07/12/2005


    SER SEM SER

Somos o mais tolo que existe. Acontece-nos com frequência sermos vítimas da nossa falta de ligação à realidade. A televisão, os filmes, os computadores... levaram-nos até muito longe daquilo que é real. Talvez nos falte aquele contacto diário com o campo, com os ritmos naturais, com os tempos de uma plantação de batatas.

Na nossa vida - em tantas circunstâncias diferentes - sucede com demasiada frequência que achamos ter direito aos frutos sem que tenha havido antes a árvore, sem que tenha havido antes a semente no mar da terra. Não sabemos esperar; não descobrimos a relação entre o tempo e os frutos do tempo, entre o esforço e os frutos do esforço. A causalidade é uma coisa desconhecida para nós.

A preguiça faz-nos imaginar que existem, além do mundo das máquinas, outros âmbitos em que basta carregar num botão para fazer surgir resultados.

E tanto nos convencemos de tudo isto que em muitos aspectos andamos inchados por fora e vazios por dentro. Andamos pintados, disfarçados... Porque quisemos ser sem ser. Ser porque sim, por decreto... Ser sem nos termos construído, sem a paciência, sem o esforço, sem a espera.

Não é possível fazer noitadas frequentes e ser-se um bom atleta; não é possível ser-se honesto sem antes disso ter dito muitas verdades daquelas difíceis; não é possível eliminar a droga sem antes disso ter edificado a família; não é possível acabar com a pedofilia permitindo a pornografia; não tem qualquer sentido armar-se em defensor dos direitos humanos e permitir o aborto.

Semente, árvore, fruto. Tempo. E, durante o tempo, esforço, dor, teimosia da boa, desânimo e de novo esperança.

Semente, árvore, fruto. De baixo para cima, do pequeno para o grande, do que não se vê para aquilo que é visível. O resto é mentira.

Mentira é a amizade feita à base de palmadinhas nas costas e da conjugação de interesses muitas vezes pouco nobres. Ou à base de noites bem bebidas em discotecas. Mentiras são os livros de belas capas, promovidos por poderosas campanhas publicitárias, e que por dentro têm... lixo. E, tantas vezes, não passam de mentiras as gravatas e os automóveis, as modas e as roupas de marca...

Quando não estamos dispostos ao esforço necessário para nos tornarmos fortes, belos, sérios, credíveis, podemos chegar a parecê-lo. Mas isso de pouco nos adianta, porque a mentira é estéril, e tudo o que com ela se consegue é fugaz, é ar e vento. E dói por dentro com dor verdadeira.

É pena que nem todos tenhamos passado pela experiência de trabalhar na construção de uma casa. Que nos tenhamos limitado a habitar casas feitas. Teriam sentido para nós palavras como "alicerce" ou "fundamento". Saberíamos que um edifício cresce tijolo a tijolo; que a sua força reside no que não se vê; que não se começa a fazê-lo pelo telhado ou pelos acabamentos.

Aquilo que é bom necessita de tempo e de esforço e da repetição de gestos pequenos, muitas vezes dolorosos.

 

Paulo Geraldo

Escrito por Fabio Oliveira às 19h56
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02/12/2005


 


 

"Se um dia tiver que escolher entre o mundo e o amor... Lembre-se: Se escolher o mundo, ficará sem o amor, mas se escolher o amor, com ele conquistará o mundo!"

 

Albert Einstein 


 

 

Sabedoria

Conta-se que num país longínquo, há muitos séculos, um rei se sentiu intrigado com algumas questões. Desejando ter respostas para elas, resolveu estabelecer um concurso do qual todas as pessoas do reino poderiam participar.

O prêmio seria uma enorme quantia em ouro, pedras preciosas, além de títulos de nobreza.

Seria premiado com tudo isto quem conseguisse responder a três questões: qual é o lugar mais importante do mundo? Qual é a tarefa mais importante do mundo? Quem é o homem mais importante do mundo?

Sábios e ignorantes, ricos e pobres, crianças, jovens e adultos se apresentaram, tentando responder as três perguntas.

Para desconsolo do rei, nenhum deles deu uma resposta que o satisfizesse.

Em todo o território um único homem não se apresentou para tentar responder os questionamentos. Era alguém considerado sábio, mas a quem não importavam as fortunas nem as honrarias da terra.

O rei convocou esse homem para vir à sua presença e tentar responder suas indagações. E o velho sábio respondeu a todas:

- O lugar mais importante do mundo é aquele onde você está. O lugar onde você mora, vive, cresce, trabalha e atua é o mais importante do mundo. É ali que você deve ser útil, prestativo e amigo, porque este é o seu lugar.

- A tarefa mais importante do mundo não é aquela que você desejaria executar, mas aquela que você deve fazer.

- Por isso, pode ser que o seu trabalho não seja o mais agradável e bem remunerado do mundo, mas é aquele que lhe permite o próprio sustento e da sua família. É aquele que lhe permite desenvolver as potencialidades que existem dentro de você. É aquele que lhe permite exercitar a paciência, a compreensão, a fraternidade.

- Se você não tem o que ama, importante que ame o que tem. A mínima tarefa é importante. Se você falhar, se se omitir, ninguém a executará em seu lugar, exatamente da forma e da maneira que você o faria.

E, finalmente, o homem mais importante do mundo é aquele que precisa de você, porque é ele que lhe possibilita a mais bela das virtudes: a caridade.

- A caridade é uma escada de luz. E o auxílio fraternal é oportunidade iluminativa. É a mais alta conquista que o homem poderá desejar.

O rei, ouvindo as respostas tão ponderadas e bem fundamentadas, aplaudiu, agradecido.

Para sua própria felicidade, descobrira um sentido para a sua vida, uma razão de ser para os seus últimos anos sobre a Terra.

...       ...       ...       ...                                       

Muitas vezes pensamos em como seria bom se tivéssemos nascido em um país com menos inflação, com menos miséria, sem taxas tão altas de desemprego, gozando de melhores oportunidades.

Outras vezes nos queixamos do trabalho que executamos todos os dias, das tarefas que temos, por acha-las muito ínfimas, sem importância.

Desejamos que determinadas pessoas, importantes, de evidência social ou financeira pudessem estar ao nosso lado para nos abrir caminhos.

Contudo, tenhamos certeza: estamos no lugar certo, na época correta, com as melhores oportunidades, com as pessoas que necessitamos para nosso crescimento interior.

 

 

Escrito por Fabio Oliveira às 19h58
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26/11/2005


REFLEXÕES SOBRE O BRASIL CONTEMPORÂNEO (I)

 

O Brasil é o país dos contrastes. O país de uma economia crescente, onde a produção de suas riquezas internas atinge quantias até anos atrás inconcebíveis, que dá sinais de crescimento vertiginoso e de enriquecimento, enquanto sua população mais carente, que por sinal é a maioria, sofre de um empobrecimento crônico enraizado por uma política de conservação do capital em mãos de poucos. O país que tem um governo que    propõe-se a pagar juros altíssimos e a poupar quantias magníficas de dinheiro anualmente, que poderia ser aplicado em programas que melhorassem a distribuição de renda e a desigualdade social, tudo em nome da conservação de um capital especulativo que atraia investidores internacionais. Um cidadão faminto recebe a ajuda mensal do governo de uma quantia irrisória, enquanto o mercado, quando se açoita, recebe quantias bilionárias. Como dizia o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, “se o mercado está nervoso, daremos calmantes para ele”, e então lá se vão milhões de reais para saciar a fome desse leão intragável. Parece que aqui o cidadão já não tem mais importância, o bom mesmo é o mercado, a opinião internacional.

O país que decide ajudar a outros países, ao enviar exército para garantia da paz, professores que garantam uma boa educação, remédios e alimentos que garantam uma boa saúde daqueles povos, enquanto o nosso aqui morre numa guerra não-declarada todos os dias, crianças ficam fora das escolas por não terem vagas para estudar, e muitos morrem de fome e doentes sem ter o mínimo de assistência que deveriam receber. O país que possui em suas entranhas o estúpido câncer da bandalhagem, que corrói a possibilidade de um crescimento digno e sustentável, e da possibilidade de uma equiparação que fosse justa para todos.

O país de um povo aculturado e alienado, que dedica-se mais em acompanhar a trajetória de garotos-prodígios que tornam-se mestres em dribles desconcertantes e rápida acumulação de milhões, enquanto tantos outros digladiam-se em ruas e becos país afora por uma ideologia esportiva que não lhes rende absolutamente nada; a heróica vitória de um simples cidadão que, com a ajuda de uma mídia manipuladora, consegue saltar vários níveis da sociedade ao atingir a fama e a riqueza em tão pouco tempo, e tornar-se uma “estrela cadente” pela simples convivência com outros populares em um reality show (porque em inglês é mais bonito); ou até mesmo a mobilização nacional para acompanhar o desfecho de uma história eletrizante, onde o mais importante é saber quem assassinou determinado personagem; enquanto a corja que domina a nação aprova na surdina leis, decretos e criações de novos impostos que vão influenciar diretamente a vida de todos os cidadãos, mesmo que os próprios nem tenham conhecimento do que será tudo aquilo, e terão que aceitar forçosamente como pagamento pela sua inoperância social.

   autor  :  Evilásio Tenório

Escrito por Fabio Oliveira às 23h52
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REFLEXÕES SOBRE O BRASIL CONTEMPORÂNEO  ( I I )

 

O país onde a inexistência de um governo social é visível, mas a incapacidade da sociedade em buscar os seus direitos faz com que perpetue-se estes costumes, e passem a tornar-se algo comum e aceitável. O país da falta de oportunidades, dos analfabetos e da falta de uma vida digna. O país que prega que o mundo precisa de paz, e inclusive propõe-se a ajudar outros países a alcançá-la, enquanto aqui esse propósito não passa de uma utopia ilusionária. O país onde a polícia é mais corrupta do que os malfeitores, e os livros com as leis servem apenas como meros enfeites na sala de magistrados e estudiosos, e que, infelizmente, não possuem nenhuma aplicação (a não ser aquelas que atinjam, diretamente, ao pobre cidadão que não pode sem tirar o pé da jaca). O país que ainda possui leis da idade da pedra, a terra do “cada-um-por-sí-e-Deus-por-mim-porque-sou-melhor-do-que-você”, e do “cala-a-boca-e-engula-porque-eu-sou-mais-forte”, onde aquela antológica cena do velhinho apontando para a tela da televisão e dizendo, em alto e bom tom, “Vocês vão ter que me engolir”,  reflete o real pensamento governamental em relação ao povo.

O país onde pessoas são meros números censorias que apenas servem para ilustrar belas apresentações computadorizadas mostrando possíveis atuações governamentais que, teoricamente, teriam alguma influência na sociedade, ou ainda que atuariam como simples marionetes em momentos onde campanhas eleitorais ministradas por verdadeiros mágicos do ilusionismo conseguem tornam o pior dos políticos na melhor das opções (ou até por falta dela ele realmente seja).

O país onde a sociedade conhece mais sobre a vida de um determinado ícone surgido através de um programa que cultua o sexo e a boa forma do que a própria história de sua formação, e uma nação que não conhece o seu passado dificilmente poderá trilhar um bom futuro.

O país que gastou bilhões para poder dizer ao mundo que possui um sistema eleitoral computadorizado e de última geração, enquanto milhões de habitantes ainda vivem em condições pré-históricas, e muitos deles não sabem nem o que significa a palavra informática.

O país que se auto-intitula “a nação do futuro”, mas que, assim como o piloto de automobilismo que a representa, nunca será o do presente, e sim sempre do futuro. Um futuro distante, talvez inexistente, ou apenas imaginável. Talvez não, quem sabe.

 autor  :  Evilásio Tenório

Escrito por Fabio Oliveira às 23h41
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REFLEXÕES SOBRE O BRASIL CONTEMPORÂNEO  ( III )

 

Aqui há muito o que fazer, e que tem um potencial que poderia elevá-lo a categoria dos melhores países do mundo, mas que por conta de todos esses poréns descritos anteriormente, não sai da estaca zero, ou podemos dizer ground zero, já que o chique nesta terra é ser poliglota. Um país com mania de grandeza, que gosta de brincar de Davi e Golias com os outros gigantes do mundo capitalista, e que acha que tem potencial para vencer.

O país que se orgulha de dizer que não possui ameaça de terrorismo, mas que internamente sofre com uma perda de muito mais de 10 WTC’s em termo de população, anualmente, por conta da violência desenfreada. Ou será que esse não seria uma espécie de terrorismo    não-declarado, já que agora todos vivemos trancados dentro de nossas próprias casas, rodeados de cercas elétricas e cachorros raivosos, ou que saímos de casa todos os dias pedindo a proteção divina e a possibilidade de voltarmos para casa com a bênção de não ter sofrido nenhum ato criminoso? Aqui não se pode ter nem uma vida noturna tranqüila, já que toda saída acaba por tornar-se uma tortura para aqueles que vão esperar em casa, sem saber se os filhos voltarão bem, e também para aqueles que saem, que preocupam-se a todo instante com toda e qualquer movimentação que ocorra nas ruas.

Muitos dizem que o único modo de mudar esse quadro é simplesmente recomeçando tudo de novo. Mas como fazer isso? A idéia passa então a ser inviável, do ponto de vista lógico. Isso é uma coisa que não vai acontecer de uma hora para outra, mas sim um processo que durará muitas gerações, começando na divulgação de uma consciência renovadora que busque a valorização da pessoa e da imposição de uma ética realmente pautada por uma conduta íntegra e respaldada pela aceitação (daí subtende-se também cumprimento) de toda a sociedade.

Somente o consenso coletivo de que as coisas não estão bem, e que unicamente uma radical transformação e uma mobilização geral, que tem realmente de ser coletiva, e não uma simples parcela populacional que vai de encontro a ideologia de outros, acomodados com os benefícios econômicos e sociais que esse caos generalizado no qual vivemos hoje lhes é conveniente.

Um país que pode mudar, e que pode deixar de ser dos contrastes, para ser dos exemplos. Mas não dos maus, e sim dos bons exemplos de como uma nação realmente é. Não quero dizer que nos transformemos em uma República de Platão, mas simplesmente em um lugar mais justo, mais digno, mais humano. Não é tão difícil, e fazer isso é realmente algo possível, se todos nós quisermos. Resta saber se a sociedade aceitaria sair de frente da televisão, e deixar de assistir a mais um capítulo da saga do brasileiro que vive num mundo de fadas, fora do país, e ir às ruas construir o seu mundo real, aqui.

Escrito por Fabio Oliveira às 23h35
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24/11/2005


Península Valdés - Patagônia Argentina

 

UMA ORAÇÃO

Jorge Luis Borges


Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.

Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.


Jorge Luis Borges nasceu em 1899 na cidade de Buenos Aires, capital da Argentina e faleceu em Genebra, no ano de 1986. É considerado o maior poeta argentino de todos os tempos e é, sem dúvida, um dos mais importantes escritores da literatura mundial.

Escrito por Fabio Oliveira às 18h56
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23/11/2005


 

 

Leia o texto, ouvindo a música (clique) :  Luzes da Ribalta

 

O Último Discurso
O Grande Ditador

Charles Chaplin

Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar - se possível - judeus, o gentio ... negros ... brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo - não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar ou desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma do homem ... levantou no mundo as muralhas do ódio ... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, emperdenidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas duas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-se muito mais. A próxima natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem ... um apelo à fraternidade universal ... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora ... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas ... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: "Não desespereis!" A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia ... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem os homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais ... que vos desprezam ... que vos escravizam ... que arregimentam as vossas vidas ... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar ... os que não se fazem amar e os inumanos.

Soldados! Não batalheis pela escravidão! lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem - não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos! Estás em vós! Vós, o povo, tendes o poder - o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela ... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto - em nome da democracia - usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo ... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progreso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.

Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo - um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergues os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

 

 

Escrito por Fabio Oliveira às 22h20
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22/11/2005


 

  Roberto Crema

 

O século 19 enfatizou, de forma obsessiva, o tema da competição. Darwin apontou para a competição entre as espécies; Marx, para os conflitos entre as classes; e Freud, para a guerra entre as potências psíquicas, entre instinto e civilização. Competitividade passou a ser uma fascinação excludente e dilacerante: para um ganhar, o outro precisa perder. Basta olhar para o cenário hipnótico da Copa do Mundo. E agora, diante de um abismo que pode ser fatal para a sobrevivência das novas gerações, precisamos aprender o sentido de palavras esquecidas, como cooperação, parceria, sinergia, amor. Precisamos aprender com os bandidos que, após um primeiro breve encontro, já trocam cartões, figurinhas, iniciando as negociatas. Os que lutam pela paz e integridade têm sido muito lentos nesta prática de agregação, trocas e de mutualidade. Neste sentido, é muito bom constatar o início de integração e dialogicidade destes três setores de uma mesma sociedade. Só uma rede de amor pode fazer frente à rede de terror, esta face tenebrosa e tão presente neste início de século e de milênio.

 

Quando eu falo em espiritualidade, não estou me referindo a nenhuma igreja, a nenhuma religião particular, embora respeite todas. Refiro-me à espiritualidade como o fazia Einstein, apontando para uma vivência cósmica; ou, ainda, outro físico contemporâneo, Fritijof Capra, que denominou seu penúltimo livro de Pertencendo ao Universo. Espiritualidade é uma consciência não-dual, uma consciência de participação, da parte no todo, que na essência é o amor, e na prática é solidariedade. Uma pessoa que despertou para essa dimensão espiritual é uma pessoa que não se vê separada do outro, da comunidade e do Universo. Eu pergunto: em sã consciência, você colocaria fogo no seu corpo? Se você sente-se não-separado do outro, você jogaria fogo em alguém que está dormindo num banco? E se você se sente não-separado da natureza, você iria empestá-la, destruir ecossistemas por uma neurose de progresso compulsivo, que foi decantada no século passado por Comte e que, agora, testemunhamos o lado sombrio dessa religião do progresso a qualquer custo, progresso a custa da hecatombe? Você empestaria a natureza se você se sentisse não-separado dela?

 

Sem sombra de dúvida. Nestes últimos séculos temos investido, de forma unilateral, no mundo da matéria, e os frutos são notáveis, sintetizados na tecnociência maravilhosa que dispomos. A grande tragédia, entretanto, é que não houve praticamente nenhum investimento significativo no mundo da subjetividade, da alma, da ética, da consciência, da essência. O resultado encontra-se nos noticiários tristes e apocalípticos de cada dia: escalada de violência e guerras infindáveis; a exclusão desumana de uma maioria, que morre de fome, por uma minoria, que morre de medo; extinção em massa de espécies; rota da colisão do ser humano com a natureza e todo tipo de aplicações tecnológicas irresponsáveis. O investimento maciço na alma é a única estratégia que poderá viabilizar a perpetuação, com qualidade e dignidade de nossa espécie. Antigas e esquecidas lições: para que serve ganhar o mundo inteiro se você perdeu a sua alma, se você se perdeu de si mesmo, se você se esqueceu do ser que lhe faz ser? Felizmente, crise é também oportunidade de aprender e de evoluir. Gosto de confiar que o ser humano será a maior descoberta do terceiro milênio!

 

Roberto Crema, Psicólogo e antropólogo do Colégio Internacional dos Terapeutas, analista transacional didata, criador do enfoque da Síntese Transacional. Mentor da Formação Holística de Base da UNIPAZ. Diretor da Holos Brasil. Educador e autor de vários livros, entre os quais "Análise Transacional Centrada na Pessoa", "Introdução à visão holística" e "Saúde e plenitude". Vice -reitor da UNIPAZ.

Escrito por Fabio Oliveira às 18h50
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18/11/2005


AS ÚLTIMAS PALAVRAS DE BUDA

 



 Não vos entristeçais. Ainda que permanecesse no mundo durante milhares de anos, isso não me livraria da morte. Nada do que se reúne escapa à separação. Já foram ensinados todos os Dharmas que trazem proveito a quem os pratica e todos os que trazem proveito a outrem. Ainda que eu permanecesse vivo, nada mais teria que fazer. Todas as pessoas que eu devia ensinar já foram ensinadas. Quanto às que eu ainda não ensinei, já criei condições para que elas sejam ensinadas. Se vós, meus discípulos, persistirdes na prática da Lei após minha morte, meu Corpo de Lei continuará eternamente vivo.

Deveis saber que, no mundo, nada existe de permanente, tudo o que se reúne está sujeito à separação. Não vos entristeçais, pois assim é o mundo. Esforçai-vos por obter a libertação. Eliminai as trevas da ignorância com a Luz da Sabedoria. O mundo é algo perigoso e incerto, sem nada de estável. Eu agora alcançarei a extinção como aquele que se livra de uma moléstia maléfica. Vou deitar fora o pior dos males, aquilo que se chama corpo e se encontra mergulhado no oceano da doença, da velhice e da morte. O sábio que destrói isso é semelhante àquele que mata um salteador. Essa destruição deve ser motivo de alegria.

Esforçai-vos sem cessar na prática que leve à libertação. Todas as leis imutáveis e mutáveis deste mundo são isentas de garantia de estabilidade.

Permanecei em silêncio. O tempo passa, e é chegada a hora de eu me extinguir.

 

Siddhartha morreu aos 80 anos de idade. Assim como Sócrates e Jesus, não deixou nada escrito, tendo seus discípulos se reunido 100 anos após sua morte  para escrever o que haviam ouvido de seu mestre, e fizeram assim o Tipitaka, que é a "bíblia" da escola Theraveda de ensino budista.

As últimas palavras de Buda foram: "Tudo o que foi criado está sujeito à decadência e à morte. Tudo é impermanente. A única coisa verdadeira é trabalhar a própria salvação com amor, perseverança e, sobretudo, muita disciplina".

 

Escrito por Fabio Oliveira às 20h40
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16/11/2005


Lição 1 – Violência contra a humanidade através de um toco de lápis.

Quando Arun tinha 13 anos, ele morava com seu avô. Um dia, enquanto voltava para casa, ele jogou na rua um toco de lápis de três centímetros que o Gandhi havia lhe dado. Arun achava que o lápis era muito pequeno e por isto, merecia um novo. Nesta noite, ele solicitou um novo e Gandhi perguntou sobre o lápis e a razão dele tê-lo jogado, solicitando que o neto o procurarasse. Em meio a escuridão e somente com uma lanterna, Arun vasculhou por duas horas antes de achá-lo.

Então, o avô lhe ensinou duas lições que se tornaram valiosas para ele. A primeira foi de que mesmo um pequeno e simples objeto, como um lápis, requer o uso dos recursos naturais do mundo. Descartá-lo é sinônimo de descartar os recursos do mundo e isto é uma violência contra a natureza. A segunda foi que embora possamos ter condições de adquirir inúmeros bens, algumas vezes os utilizamos de forma indiscriminada, consumindo recursos além do necessário.

Quando os consumimos em excesso, estamos privando que estes possam ser direcionados para pessoas que vivem na miséria e esta é uma violência contra a humanidade. Gandhi ensinou que, muitas vezes, as nossas pequenas ações diárias são atos de violência e que somente tomando o devido cuidado com os pequenos detalhes é que seremos capazes de resolver as grandes violências que ocorrem no mundo.

Lição 2 – Árvore Familiar da Violência

Gandhi ensinou ao jovem Arun que nós devemos compreender o que é a violência, antes de compreendermos o significado da não-violência. Ele sentia que isto era necessário para que pudéssemos compreender o volume de atos violentos que praticamos todos os dias. Gandhi sugeriu para que o neto desenhasse uma "Árvore Familiar da Violência", sendo que a violência seria o tronco e a violência física e a violência passiva como dois ramos. Em seguida, ele explicou que a violência física é fácil de ser compreendida, pois causa feridas na pessoa atingida. Entretanto, a violência passiva - como a opressão, repressão, ódio, insulto e preconceito - não pode ser necessariamente observada. Assim, a violência passiva - a qual geramos a todo momento - faz brotar o sentimento de raiva na vítima e provoca a violência física. A violência passiva é o combustível que faz acender a violência física.

Desta forma, Gandhi ensinou que para cessarmos a violência, é fundamental rompermos a sua fonte, ou seja, a violência passiva. O pacifista indiano ensinou que devemos ser os precursores das mudanças que gostaríamos de presenciar e que isto somente é possível através do ato de compreendermos o quão violentos somos. Ele acrescentou que se vivermos negando nossa violência, somente iremos permitir que ela continue presente. Arun compartilhou esta compreensão com Gandhi desde a tenra infância, construindo esta "Árvore Familiar da Violência". Ele escrevia diariamente sobre os seus sentimentos, ações e palavras, assim como os fatos que presenciava. Por fim, ele compreendeu o quão violento ele era e através deste exercício, começou a mudar o seu comportamento.

Lição 3 – Confiança e Ação Construtiva

Gandhi ensinou que cada indivíduo possui um talento, na qual pode ser adquirido ou inerente. Entretanto, as pessoas geralmente acreditam que este talento pode ser dispendido de acordo com o seu próprio desejo. Gandhi acreditava que nós não éramos proprietários deste talento, mas que este nos era confiado.

Logo, este deveria ser utilizado em prol do bem estar social. Isto significa muito mais do meramente distribuir algo para alguém necessitado. Uma atividade compassiva é diferente, pois requer a interrupção do que estamos realizando neste momento e o redirecionamento de nossas energias em prol de uma solução para quem necessita de nossa ajuda. Requer que possamos encontrar a causa de uma determinada situação e de forma concreta, colaborar para que o indivíduo utilize o seu talento, com o objetivo de transformar esta circunstância para melhor. Tudo isto requer um sacríficio de tempo pessoal, para que possamos tanto conhecer o outro, como ajudá-lo na resolução do seu problema.

Lição 4 – Jornal da Raiva

Gandhi ensinou que a raiva é positiva, quando ela é compreendida e direcionada de forma efetiva e inteligente. Ele declarou que a raiva é como a eletricidade, na qual se utilizada de modo inadvertido pode destruir a todos; mas, se canalizada de forma inteligente, pode ser utilizada para o bem da sociedade. Gandhi sugeriu que Arun mantivesse um "Jornal da Raiva", na qual ele escreveria todas as vezes que estivesse irado, ao invés de  mantê-la viva dentro de si e que para o seu neto pudesse aprender a canalizar esta emoção de forma construtiva e enriquecedora.

 

autor : Arun Gandhi, neto do pacifista Mahatma Gandhi

Escrito por Fabio Oliveira às 21h56
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